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novembro 03, 2002

Apenas um pequeno instante

Deve ter sido numa tarde chuvosa de sábado. Havia muitas pessoas na rua. Aurora sentou-se num banco molhado da praça, o guarda-chuva aberto, com um pequeno rasgo. Durante cinco minutos pensou somente naquele momento, viu ao longe as vitrines das lojas, as gentes, as filas dos cinemas. Nos outros minutos tentou não pensar em nada, embora fazendo isso pensasse cem vezes mais. Imaginou o marido preso ou morto, o filho doente, um incêndio em sua casa. Sorriu porque nunca teve marido ou filhos, constatou que seus pés estavam frios, mas isto não era importante.

Aurora sabia de si, sempre soube, sempre fez questão de saber. Para ela não importavam palavras não ditas ou fatos não consumados. Prestava, sim, muita atenção nos detalhes dos quadros, em certos trechos de algumas músicas, nos cenários dos filmes que via. Considerava-se metódica, mas também sabia ser imprevisível, como naquele instante, sentada num banco molhado da praça, o guarda-chuva aberto e rasgado num pedacinho.

Lembrou da família - a mãe que morreu de derrame, o pai que foi logo atrás e o irmão que foi para o exército -, do primeiro beijo aos doze anos e da virgindade perdida aos dezessete, nas férias de verão, com um rapaz que nem era seu namorado. Surpreendeu-se novamente sorrindo e pensando em seu apartamento de um quarto só, procurando lembrar se tinha fechado a janela antes de sair.

Quis verificar se ainda era bela aos trinta e sete anos, mas não carregava nenhum espelho consigo e tão pouco havia algum por perto. Perguntou-se por que nunca havia se casado e também por que não tinha carro.

Foi então que ela se deparou com os olhos cheios de amor e uma vontade danada de dividi-lo: Aurora não era egoísta. Por alguns instantes teve o desejo de amar totalmente um homem que não fosse nem muito sério, nem muito vazio. Mesmo que ele só quisesse seu corpo, ela o amaria assim mesmo e passaria os dias amando-o, as noites, as tardes, a própria eternidade. Teve vontade de escrever uma poesia, abriu a bolsa, apanhou um pedaço de papel, uma caneta, e escreveu:

"Oh, amor, se me quiseres, serei tua
Te amarei tanto, aqui mesmo, na rua"

Interrompeu-se, leu e riscou aquilo tudo, amassou o papel e jogou-o na calçada, perto do canteiro, ao lado da cesta de lixo. Já estava escurecendo e ela nem percebia. Só mesmo quando as lojas começaram a acender seus letreiros é que ela notou que já podia ser tarde e teve finalmente essa certeza quando informou as horas a alguém que passava.

Levantou-se do banco, orientou-se. Passando ao lado do canteiro, apanhou o papel que havia jogado fora, que agora estava molhado, com a tinta começando a borrar. Desamassou-o, dobrou-o e o guardou na bolsa.

"Oh, amor, se me quiseres, serei tua
Te amarei tanto, aqui mesmo, na rua"

Achou que poderia acabar a poesia em casa, conseguindo até rimas melhores, num dia qualquer em que tivesse as horas vagas coincidindo com seu amor igualmente vago. Atravessou a rua e entrou num ônibus escuro e cheio.

Naquela hora que anoitecia, Aurora sentia uma vontade enorme de amanhecer.

Publicado por Marcus Moura 02:53 AM | Comentários (1)


Uma estranha no ninho

Está no jornal O Globo (RJ): os policiais militares que fizeram a vistoria na penitenciária José Maria Alckimim, em Belo Horizonte, após a rebelião da última sexta-feira, ao procurar armas, explosivos e afins, acabaram encontrando uma mulher que estava por lá há uma semana, dormindo com um dos presos. Identificada como Adriana Souza, ela disse que passava todos os finais de semana no presídio (Programão! E parece que dessa vez ela resolveu esticar o fim de semana). O coronel Sócrates dos Anjos, da PM mineira, preferiu não fazer nenhum comentário sobre o incidente, apenas disse que isso é um problema da direção da penitenciária.

Conclusão: os detentos de BH tem mais savoir faire que os daqui do Rio. E, definitivamente, os mineiros são muito discretos.

Publicado por Marcus Moura 01:11 AM | Comentários (0)



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